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Moda: precisamos falar sobre a LAB, marca estreante de Emicida e Fióti

Na segunda noite de São Paulo Fashion Week e na estreia de sua marca com seu irmão Fióti, a LAB, Emicida entrou na passarela montada no Parque Ibirapuera cantando uma trilha pensada especialmente para o momento. Não houve quem não se sentisse minimamente tocado pela entrada triunfal, mas aquele era só o começo. Emicida logo se sentou ao lado de Costanza Pascolato, onde manteve o microfone na mão quase que num simbolismo do que acontecia ali: a representatividade sendo defendida na moda por quem realmente tem lugar de fala, representatividade de quem, de fato, representa o que diz.

Isso porque, desde que o empoderamento e seus debates ocuparam os espaços de comunicação que a gente consome e produz e representatividade foi, cada vez mais, se tornando a pauta da vez, (como era de se esperar) houve uma captura desses discursos pelo mercado, inclusive o de moda. Falamos sobre a mulher sem sermos mulher. Falamos sobre o gordo sem sermos gordos. Falamos sobre o trans sem sermos trans. Falamos sobre o negro sem sermos negros. Queremos significar coleções e linguagens apresentadas nas semanas de moda (porque esse papo vende, não é mesmo?) sem legitimidade.

Zé Takahashi/FOTOSITE

Eis que vem a LAB e faz isso com toda a genuinidade e pertinência. Eis que negros e rappers da periferia, que hoje circulam pelos mais variados ambientes, traduzem em moda seu universo. O lugar de fala é real e se garante não apenas em Emicida e em Fióti, mas em toda a estrutura do desfile, cujas roupas foram apresentadas por uma maioria de modelos negros, além de alguns plus size e os amigos Seu Jorge (portando uma maravilhosa saia longa plissada) e Ellen Oléria. Foi uma comoção e um tapa na cara ao mesmo tempo, e sobre isso Fióti deu uma ótima declaração: “Não estamos fazendo nenhum tipo de protesto. Apenas retratando o Brasil como ele realmente é. A moda tem que ser inclusiva e não gerar mágoas ou destruir sonhos”. A LAB chegou e fez algo que a moda gosta de falar sobre fazer, mas quase nunca faz de fato.

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Os irmãos se juntaram ao estilista João Pimenta para essa empreitada fashion ontem apresentada, que veio inspirada em Yasuke, um samurai negro que quebrou vários paradigmas. É um recorte sem estereótipos de referências da nossa história, uma releitura da ancestralidade africana que se perdeu no Brasil, com pegadas asiáticas e, claro, muita moda de rua e alusões ao universo do rap. As criações (que já estão à venda) são para qualquer gênero, nas palavras do próprio João Pimenta, e trazem um streetwear em preto, branco e vermelho. Surra de estampas gráficas, coisa que tá muito em alta nas marcas de streetwear do mundo afora, moletom em calças e casacos, capuz e golas enormes, quimonos revisitados, ombreiras e muito oversized.

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Depois do desfile, Emicida fez um show de 40 minutos na tenda do evento. Hora de celebrar a representatividade realmente e verdadeiramente vista minutos antes na passarela do SPFW e hora de digerir toda a discussão que a LAB veio fomentar no mundo da moda. Seguimos torcendo por cada vez mais espaços como este sendo construídos e que esses se mantenham fiéis à sua verdade, mesmo com toda a pressão que a gente sabe que o mercado pode fazer para “corromper” o discurso alheio. Vida longa à LAB!