Tag: geração y

A vida real acontece offline

Campanha publicitária minha em parceria com a Ray-Ban, que por coincidência, tem o tema ‘A Vida Real Acontece Offline’

Vocês devem ter visto recentemente a notícia de Essena O’Neill, a instablogger australiana que resolveu jogar tudo pro alto e “abandonar” a sua vida perfeita. Essena faz parte de um fenômeno chamado influenciadores digitais – no qual eu também posso me enquadrar, por trabalhar há seis anos com ferramentas digitais e manter uma personalidade digital. Eu recebi a notícia de Essena com algum entusiasmo, por ver que existe gente por aí que realmente está se dando conta da inversão de valores tão rápida que sofremos, da busca eterna por likes, da amizade de famosos, por comentários positivos, e essa ansiedade sem linha de chegada em ser aceito.

O vídeo de 18 minutos é um pouco desesperador, repetitivo, mas tão contemporâneo.

A ruptura foi drástica: ela deletou 2.000 fotos e re-legendou algumas delas, com o tema ‘Social Media is Not Real Life’, e agora propõe um novo estilo de vida, mais desconectado e principalmente mais próximo à realidade. Essena agora não quer mais ser uma garota bonita, magra, bronzeada e de dentes brancos, apesar de ter construído milimetricamente este código. Quer ser conhecida pela sua mensagem, algo que apesar dos seus milhares de seguidores, jamais conseguiu materializar, pois ao perceber que suas fotos calculadas com barriguinha de fora, pose zen e saladinha no almoço faziam muito sucesso, preferiu seguir por esta linha editorial. Um caminho óbvio, esquecível, e pelo visto, que deve surtar.

Raf Simons deixa a Dior – ele só queria ser um grande estilista, e não queria fazer o rolê da celebridade. Há um ponto de contato com a história de Essena?

A maturidade de Essena, com pitadas de síndrome do pânico, nos faz refletir sobre a carência da vida real travestida do rótulo de ‘instablogger’. O quanto estamos deixando de viver momentos reais com pessoas ao lado para pensar na próxima imagem perfeita e projetar um estilo de vida invejável? O quanto estamos perdendo músicas incríveis no show do nosso artista preferido para fazer vídeos toscos e tentar colocar isso na internet só para dizer que fomos? Quantas vezes estamos sentados num restaurante sem falar com o amigo que divide a refeição conosco porque queremos fazer a foto perfeita para o Instagr.am? Quanto a isso sim, realmente, temos que abrir os olhos. Obrigado por reforçar o coro, Essena.

E aí você começa a se perguntar: será que eu sou meio Essena? É, eu devo ter meus momentos de deslumbre. Tenho meus momentos egotrip quando posto uma foto sem camisa com um resultado suado de academia, o que pra mim é motivo de orgulho pela minha vocação boêmia (gente, meu pai é do Carnaval, dá um desconto). Mas, durante toda a vida estudo, estudei e estudarei, e tento agregar isso no meu conteúdo audiovisual, como em vídeos do Youtube. Hoje dou aulas e palestras pelo país sobre comportamento jovem e empreendedorismo, momentos onde a troca de energia e principalmente conteúdo com gente pensante e interessada vale mais do que qualquer chuva de likes. Uma boa entrevista com um artista impressionante me enche de ideias e inspiração que o Instagram jamais verá. Uma viagem onde a jornada e as pessoas que a gente conhece valem mais do que os bons filtros do VSCOCam são memórias que eu vou só vou contar numa mesa de bar. Portanto há sim muitas chances de criar momentos incríveis com as plataformas online e usá-las ao seu favor ao invés de sentir que ‘criou o seu próprio monstro’. Conteúdo é uma escolha.

É necessário dar um passo para trás e perceber que tipo de comunicador você quer ser, e isso vale para qualquer carreira, afinal, não existe mais nenhum negócio no mundo sem comunicação digital. Mesmo os médicos hoje em dia tem boas páginas com um super sistema de SEO. Talvez eu nunca seja o cara do um milhão de likes. Mas eu escolhi não ser. Se você quiser ser, vou até te dar uma dica: crie um Instagr.am com moodboards com fotos de estilo de vida, cartões de embarque na executiva, pratos lights, relógios, carros, barcos, whey, abdôme trincado, e claro, muita selfie com famosos. Cuidado só pra não Essenar após alguns aninhos.

Essena agora quer se reinventar. Mas peraí, ela vai aproveitar sua plataforma – o que pra mim é controverso, afinal, se você quer mesmo desconectar, seja mais Ana Paula Arósio, amiga – para falar de coisas que para ela importam ‘de verdade’ como veganismo, preservação do meio ambiente, amor, autenticidade, mindfulness, liberdade de expressão. Por ironia do destino, ou não, todos esses temas são ~super bacanas~ e relevantes no nosso zeitgeist. É Essena, acho que ainda dá tempo de passar mais umas horas no divã.

Desde quando ser classe média virou ofensa?

Meu blog já tem uns dois ou três anos, e uma característica que me alegra daqui é que nunca foi um lugar onde eu precisei moderar ou ficar melindrado com os comentários, porque sempre foi – ainda bem – uma plataforma muito livre de ódio. Seja pelo conteúdo e/ou pela minha personalidade, nunca fui muito alvo dos xiitas, fascistas ou chatos de galocha da internet. Na semana passada, entretanto, foi um pouco diferente, quando publiquei o texto “Os 20 e tantos anos são tão melhores que os 20 poucos anos“.

O texto fala de maturidade, relações familiares, amor, bem estar, auto conhecimento, um melhor poder aquisitivo, algumas coisinhas que a gente conquista com o passar dos anos através do trabalho, algum investimento em terapia, boa vontade, e a escola da vida, pura e simplesmente. De repente surgiram as críticas. Curioso que o ~xingamento~ principal era de Classe Média. Mas peraí, desde quando ser classe média virou uma ofensa?

Ser Classe Média para mim é ser da classe trabalhadora. Proletariado. Que orienta a vida em função da família, do trabalho, da educação, e do amor. Que convive respeitando as demais pessoas e as regras. Paga os impostos, sonha com o metrô na porta de casa, bons aeroportos, se preocupa com a inflação. Sem glamour. Moro em um sopé de ladeira de favela [hoje pacificada] e ando de transporte público, porque acho mais prático, barato e para ser complacente com os problemas da mobilidade urbana.

Nem precisaria dar toda essa satisfação, mas me irritou mesmo um comentário de uma menina que insinuou “O que ele fazia anteriormente [com as empregadas domésticas]? Dava chicotada? Amarrava num tronco?”. Quando eu apenas mencionei que gostava de presentar Verinha, minha diarista, com várias coisas bacanas, como por um banho de ervas para limpar as energias que eu comprara em uma viagem no Pará, discos que não ouvia, etc. Assim como adoro quando o GNT me manda umas panelas de presente de aniversário, ou umas roupas de academia no fim do ano. De repente virei Senhor de Engenho, Coronel? Quanta violência.

Essa é a maior preguiça que dá na internet. Assim como a gente consegue conhecer pessoas incríveis e construir ótimas relações, o território também fica aberto para gente idiota surgir e tentar polemizar, atacar, destruir. Essa censura intelectual sim que é um baita de um coxinhismo às avessas. Não adianta arrotar que é USPiano e ficar perdendo tempo me atacando aqui na internet. A propósito, eu adoro a Marilena Chauí, que deve ser o maior ídolo de vocês, e concordo com a maioria das análises dela. Vocês já devem ter visto mil palestras dela, falando sobre a Classe Mérdia Paulistana. Não me confundam, não sou desse grupo: não tenho SUV, não vivo em área vip, e principalmente, não sou paulistano.

Sou pernambucano, filho de sertanejos, família de trabalhadores. Magoados de plantão, desculpem por enxergar a vida com otimismo. Por enquanto, eu só tenho o presente e tento fazer dele o melhor que consigo. Sai pra lá com esse papo anos 60.

Os 20 e tantos anos são tão melhores que os 20 e poucos!

Solange Knowles, 20 e tantos anos, cantora

Tem um texto aqui no blog que bomba muito que fala sobre a Síndrome dos 20 e poucos anos.  Mas o tempo passa para mim, você e todo mundo. Agora aos 26 anos, já não enxergo mais o mundo como quando tinha 22. Ainda bem, e afirmo com toda a certeza: ter vinte e tantos anos é muito melhor do que ter vinte e poucos anos.

Com vinte e tantos, já não somos tão ansiosos e impetuosos quanto antes. Geralmente já conquistamos alguma coisinha ou outra da qual podemos nos orgulhar. Temos confiança no nosso taco e já não somos tão franco-atiradores – mas ainda temos energia para a ousadia. Já provamos para nós mesmos que somos capazes de sair da casa dos pais e cuidar da nossa própria. Com 20 e tantos, já não precisamos morar em um muquifo ou em uma república com mais dez, porque ganhamos mais do que R$ 600 + vale transporte.

Aprendemos a selecionar melhor nossos amigos e dar todo o valor a eles. Já sentimos a energia negativa dos truqueiros de primeira, algo que talvez aos vinte e poucos estivéssemos embriagados demais para perceber. Respeitamos mais os pais e aproveitamos todos os segundos em família, com a chegada dos sobrinhos e os filhos dos primos. Os pais já não enchem mais tanto o nosso saco tentando proibir, mas ainda se preocupam em nos acolher quando estamos estressados, doentes, trabalhando demais, ou de coração partido.

Ah, o amor. Com vinte e tantos, se não te ligam [ou mandam Whatsapp né, 2013] no dia seguinte, foda-se. Já temos amor próprio e a certeza de que se a gente quiser, a fila voa. Só se quiser mesmo, porque a maturidade tira o desasossego e nos ensina a se aceitar e ficar tranquilo solteiro, e às vezes melhor sozinho, porque dá muito trabalho ficar de papo furado.

Passamos a evitar os programas que vão ser uma baita de uma função, que na época da faculdade a gente só ia porque precisava se enturmar. Escolhemos melhor nossas viagens e principalmente nossas companhias de viagens. Ao invés de querer visitar cinco países na Europa em dez dias, escolhemos um só lugar e ficamos quinze dias explorando cada cantinho da cidade. Cultivamos o hábito de comprar coisas para a nossa casa, que começa a ser o nosso templo.

Viramos mais generosos com as nossas diaristas, porteiros e zeladores, e sempre damos um monte de coisa bacana de presente a eles. Bebemos mais água porque a dermatologista recomendou, e nosso corpo funciona melhor. Paramos de fumar, pela saúde e pela cafonice. Apagamos as mp3s de David Guetta, Calvin Harris, e afins, e pesquisamos música nos discos dos nossos pais, que estão cheios de jazz e ótima música brasileira.

Com vinte e tantos anos, a gente só quer do nosso lado gente que nos agrega. Amor, amizade, ou os dois. Que te indica um filme, que te leva pra conhecer um lugar novo, que te convida pra jantar e paga porque recebeu salário ontem, que sabe o telefone do melhor acupunturista, que tem as melhores dicas de viagens, que te escuta. Porque você também é essa pessoa que faz tudo por seus amores e amizades.

Jurava que nada ia superar meus 22 anos, mas tô amando ter vinte e tantos. E vocês?

Texto de Caio Braz

Geração Y: A geração do ‘Eu, Eu, Eu’?

Nós, geração Y, somos capa da TIME Magazine desta semana. Sabe como ela nos descreve? Seríamos a geração do ‘Eu, Eu, Eu’, e ataca: os Millennials são preguiçosos e narcisistas que ainda moram com seus pais.

Confirat trecho: “Estes não são apenas estereótipos negativos infundados sobre 80 milhões de americanos nascidos aproximadamente entre 1980 e 2000. Eles são apoiados por uma década de pesquisa sociológica. O National Institutes of Health descobriu que, para as pessoas em seus 20 anos, o Transtorno da Personalidade Narcisista é três vezes mais alto do que a geração de 65 anos ou mais. Em 1992, 80% das pessoas com menos de 23 anos queriam um dia ter um emprego com maior responsabilidade. Dez anos depois, apenas 60%. Os Millennials receberam tantos troféus de participação crescendo, que 40% deles acham que devem ser promovidos a cada dois anos – independentemente do desempenho. Eles são tão esperançosos sobre o futuro que você pode achar que eles nunca ouviram falar de algo chamado de A Grande Recessão.”

Para ler a matéria inteira, é necessário comprar ou ser assinante da TIME. Não sou, mas já consegui achar Millennials furiosíssimos com as acusações, na seção de comentários, como este daqui, que concordo:

"Toda essa história me deixa tão irritada. Quem p*rra escreve um artigo atacando toda uma geração de pessoas, que está crescendo em um clima econômico terrível criada pela geração anterior? Nós não temos outra opção do que simplesmente limpar a bagunça deixada pelos baby boomers que, gastando e vivendo muito acima de seus meios criaram uma crise econômica global e, literalmente, destruiram mais do meio ambiente do que as 10 gerações antes disso? Pagamos valores ridículos de impostos para sustentar políticas públicas e econômicas criadas pelos boomers, que por sinal, sequer concordamos."

Clique para ver mais comentários

O que você acha desse fuzuê todo? É sabido que nós, Gen Y, também não aguentamos um dedo na ferida. Qual a sua opinião?

UPDATE: O amigo Henrique Sauer me enviou este link via Facebook, do site The Atlantic Wire, com o excelente título: Every Every Every Generation Has Been the Me Generation. Conteúdo apenas em inglês, mas se você se interessa pelo tema, é imperdível!

20 e poucos anos vs. 20 e tantos anos

Difícil esse momento quando você não sabe mais se tem vinte e poucos ou vinte e tantos anos. Daí vem o maravilhoso Buzzfeed e nos apresenta essa pérola, traduzida abaixo:

20 e poucos: o day after depois de 4 drinks

20 e tantos: pra sair da cama, só rastejando no estilo Samara, de O Chamado

Tentando perder 3 quilos com 20 e poucos: Uhuu! Vamo aê!

20 e tantos: adeus metabolismo!

20 e poucos: quando você descobre que tem alguém falando de você,

20 e tantos: caguei!

Balada quando você tem 20 e poucos:

Balada quando você tem 20 e tantos:

Comer com 20 e poucos…

Comer com 20 e tantos: pelo menos você TENTA!

O que você acha FODA quando tem 20 e poucos:

O que voce acha FODA quando tem 20 e tantos:

Confiança, 20 e poucos:

Confiança, 20 e tantos:

Tentando arrumar uma grana com 20 e poucos: PAI, MÃE, SOCORRO!

20 e tantos: ok, tô tentando… até quando tenho pra pagar?

Empolgação quando você tem 20 e poucos:

Empolgação quando você tem 20 e tantos:

Fazer amizades com 20 e poucos: Uhuuu! Facul!

Todos os seus amigos com 20 e tantos:

20 e poucos: levando um pé na bunda.

20 e tantos:

20 e poucos: sábado, uma da manhã.

20 e tantos: sábado, uma da manhã.

Sair com a galera da faculdade quando você tem 20 e poucos:

Sair com pessoas que fazem faculdade quando você tem 20 e tantos:

20 e poucos:

20 e tantos:

A idiotização da informação?

Muito se fala sobre a internet com olhos vidrados em sua ágil e inconsequente produção de informações, que caem na rede como peixes na piracema. Pouco, muito pouco mesmo, se comenta sobre o lado do receptor, muitas vezes insolente, sentado à mesa farta de pescados dos mais variados. Do podre robalo ao nobre salmão.

Cabe aqui jogar a isca e pescar a atenção para a tal ‘idiotização da informação‘ que enfrentamos. Processo que se inicia a partir do momento em que links, chamadinhas, status são projetados a centenas pelas redes sociais. Ali, estamos encarando mais uma enxurrada eterna de carcateres que se proliferam por todos os lados. Caracteres que definem, por excelência, a relevância, teor e contexto das informações em destaque. A manchete, hoje com as feições de um link, ganhou nossa assinatura, muitas vezes leviana. Além da informação, da notícia, do fato, há também o ‘aval do usário’. Em seu perfil no Facebook, você pode transformar uma renúncia papal em tragédia ou chacota.

Antes, sentado na varanda de casa, se não quiséssemos partir das manchetes para o corpo da reportagem, esta seria uma escolha particular, íntima e pessoal. Hoje, também podemos interromper o mergulho ali, pelos highlights. Mas podemos também, com a desfaçatez que a internet nos deu (ah, geração Y), transferir a notícia adiante mesmo sem termos sequer lido. Temos em nossas mãos a capacidade, até simples, de transformar a nossa própria alienação em domínio de conhecimento. Podemos nos manter acima de uma manchete. Conseguimos ‘legitimar’ a idiotização das informações. E aquele que nos segue, no fundo, jamais saberá se nossa ‘supramanchete’ tem fundamento ou não. Pois, enquanto ele reflete sobre tal fato, já estamos maquinando a próxima notícia a ser idiotizada.

E, como toda engrenagem cibernética, a idiotização da informação caminha a passos largos. Para tristeza de muitos, deixando rastros lamentáveis. Pois saiba que, além de idiotas, estamos ficando insensíveis. Uma prova?

Pouco antes do Carnaval, as redes foram tomadas por compartilhamentos de um vídeo em que Ariel Goldenberg, ator portador da Síndrome de Down, recebia o apoio de diversas celebridades em sua causa, nobre e legítima: convocar o astro hollywoodiano Sean Penn para que o mesmo compareça a première de ‘Colegas’, filme estrelado por Ariel e premiado no Festival de Gramado de 2012. O jornalista que aqui escreve, por acaso, já conhecia a figura de Ariel há tempos, o que o legitimou, automaticamente, a compartilhar e render sua devida homenagem ao viral.

Porém, de forma simultânea a tantas outras demonstrações de nobreza, foi possível observar um preocupante comportamento que demonstra a tal evolução da idiotização da informação. Internautas, sem sequer clicarem no vídeo, contestando a idoneidade do ‘movimento’. Não seria campanha do famoso sabão em pó de mesmo nome que o ator? Ou, ainda pior: de que adiantaria compartilhar o vídeo se Sean Penn jamais teria contato com aquele material?

Bem, a primeira reação, desculpem-me, só explicita a idiotização em sua forma mais cristalina: a pura preguiça de clicar em um vídeo transformou a beleza de uma campanha genuína em uma possível campanha com fins comerciais. A que ponto chegamos, hein, idiotas? Já a segunda reação, que me causa mais dor em notar a existência, é sintomática: além de idiotas, estamos nos tornando um bando de insensíveis. Triste.

Por Pedro Willmesdorf
12