No Dia Mundial de Combate Contra a AIDS, o papo reto (e afetuoso) de um soropositivo

Hoje, dia 1º de dezembro, é o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. E a gente queria falar sobre isso de um jeito menos “cagador de regra”, autoritário e distanciado, de uma forma mais afetuosa e numa tentativa de nos aproximarmos de pelo menos uma das realidades da doença (porque claro, existem várias). Há 35 anos aconteceu aquele momento emergencial da AIDS, que assustou muita gente e levou muitos. De lá pra cá, a realidade da epidemia se transformou: Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, declarou que “a comunidade internacional pode olhar para trás com algum orgulho, mas ainda é preciso mirar adiante com determinação e comprometimento”.

Isso vem sendo feito de diversas formas, por meio de variadas frentes, de programas mundiais que se engajam para colocar fim à epidemia até 2030, como o caso da ONU, até iniciativas de comunicação e de acesso à informação, que em dias como hoje, por exemplo, publicam grandes reportagens cheias de dados sobre o assunto. Iniciativas todas importantes e louváveis, obviamente, mas como abordar a questão de um jeito mais terreno e esclarecedor, sem reproduzir clichês ou mesmo os números que são de fácil acesso online?

Foi aí que nos deparamos com um testemunho pessoal do Fernando Impagliazzo no Facebook que vem de um lugar de fala, é desmistificador e traz uma visão interna da coisa. E o convidamos para compartilhar aqui essa letra. “Você se sente confortável compartilhando, Fe?”, “Me sinto não só confortável como fazendo algo necessário e urgente. Fazer com que esse mundo seja menos preconceituoso, menos século XIX, menos difícil para todos nós”, ele respondeu. Então aqui estão suas colocações:

1º de Dezembro é o Dia Internacional da Luta Contra a AIDS. Pessoalmente, não gosto desse “contra” no título. Primeiro porque reforça a ideia bélica de que o vírus seja um invasor. Segundo porque, me sabendo soropositivo há sete anos, percebi que lutar contra alguma coisa é bem diferente de lutar a favor de si. “AID”, em inglês, é cuidado. Ser soropositivo é levar todo esse cuidado da doença pro resto da vida. Por um lado, o velho sermão de “você vai ter de tomar remédio o resto da vida”. Mas também um estar mais atento tanto à sua saúde e às suas necessidades, quanto estar atento ao outro.

A luta CONTRA a AIDS, pra mim, se torna uma luta CONTRA o “cuidado”, CONTRA um saber que há pelo menos 50 anos, a humanidade tem adquirido de si mesma. Minha luta a favor, a favor do direito de estar vivo, do direito de saber que boa parte da nossa juventude ainda contrai o vírus. Não, não é porque é promíscua (como se houvesse algum desvalor nisso, procure promíscuo no dicionário) nem muito menos porque é desavisada. As pessoas que contraem o vírus são, antes de tudo, pessoas que se doaram descuidadosamente ao outro. Esse outro, muitas vezes, não é o inimigo. O vírus vem para tomar uma outra dimensão.

Pois bem, falo de uma luta. Nada bélica. Feita de união. A favor do direito de sabermos toda a implicação que esse cuidado ainda carrega. Apesar de o vírus estar controlado pela Medicina, os efeitos são bem ruins. Desde 2010, meu fígado, por exemplo, tem apresentado uma inflamação, decorrente do vírus e do meu sobrepeso. Comecei então a fazer atividade física. O vírus, tão ruim no imaginário das pessoas, pode ser bem real na vida prática. Apesar de me trazer um hábito de vida saudável, eu repito: é sempre melhor não ter o vírus. Luto também para que, quando alguém que se souber soropositivo, isso ser encarado da melhor forma possível. Estar consciente da doença e, ao mesmo tempo, longe das metáforas preconceituosas que ouvimos cotidianamente sobre o HIV.

Amor e cuidado a todos!

Para entender mais do imaginário construído em torno da AIDS e quebrar seus paradigmas, vale ler o livro “Doença Como Metáfora / AIDS e Suas Metáforas”, da Susan Sontag, dica do próprio Fernando. Quebrar estigmas também faz parte dessa luta. É sempre importante lembrar que pessoas em situação de pobreza sofrem ainda mais com o HIV, com menos acesso a cuidados e serviços, mas o apoio é necessidade para pobres, ricos, para a classe média, para o seu amigo. A ideia aqui não é alienar, pelo contrário, é trocar. Falemos, conversemos, ESCUTEMOS e lutemos da forma que dá. E ei: vamos nos cuidar!

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