Caio Braz/

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Internet é o novo crack e a velocidade da desinformação

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Difícil missão essa de viver em 2012. Despertar com o alarme do iPhone e ao abrir o primeiro olho, correr para o instagr.am para ver quem curtiu e comentou as suas fotos. Depois, o Twitter, pra ver as mentions, e com sorte, uma DM reveladora. Depois o Facebook, que deu uma bagaceirada e te enche de notificações de festas que você não quer ir, e alguns aplicativos inúteis. Por último o e-mail, repleto de mensagens de sites de compras coletivas de cidades que você sequer pisou. E enfim, abrir os dois olhos e dar o primeiro bocejo, em pleno inverno (glacial) paulistano.

A gente toma café, sai pra trabalhar. Entra em outro computador. E no caminho do trabalho, não larga o iPhone, mesmo com um pouquinho de medo de assalto. No trajeto, curte o microcosmo das suas músicas, e do fone de ouvido design. Se alguém te pede informação você já fica #chatiado porque tava chegando no refrão e teve que tirar o fone. Passamos o dia inteiro esbravejando pelo sinal miserável, o 3G sofrido, e a bateria ridícula do iPhone. Quando dá 60%, já começo a surtar. Quando chega aos 20%, é motivo de aflição completa: medo do isolamento, e da obsolescência. O vício de lembrar de sempre passar a mão no bolso direito da calça para ver se ele está lá. O vício de sempre passar a mão no banco do táxi pra ter certeza que não o esqueceu. Tudo para não se desconectar.

As pessoas simplesmente desaprenderam a marcar compromissos como se fazia antes do telefone celular. Lembra que a gente ligava para a casa das pessoas, cumprimentava a mãe do amigo da escola, e pedia pra ela passar adiante? Depois marcava com o amigo às 14h30 na esquina da rua pra andar de bicicleta pelo bairro, e os dois chegavam pontualmente. Não tinha essa de mandar mensagem (tô chegando, tô preso, atrasei). Não podia deixar na mão. E hoje quando a gente se encontra em um bar, difícil mesmo é largar mão do iPhone. Pior só nos festivais, onde telefone simplesmente não funciona – e ninguém se encontra, porque a gente desaprendeu a viver. Porque teoricamente, temos o iPhone pra mandar uma mensagem e nos reencontrarmos. Só que não.


A impressão que dá é que se a gente não estiver conectado, vai estar perdendo alguma grande notícia. No final das contas, nem tem uma grande notícia. Às vezes chega um e-mail ou outro com uma novidade legal. Mas poderia ser um telefonema old school. Ou até, pessoalmente. As coisas incríveis nas vidas de todas as pessoas sempre aconteceram e chegaram de algum jeito. A gente se enche de informação que não serve pra nada e até perde um pouco da capacidade de interpretação – com tanta coisa rolando sujeita à aprovação, às vezes você deixa de clicar em algo que poderia te agregar algum conhecimento porque só duas pessoas deram like, e alimentamos a nossa cota diária de voyeurismo e vício em sites idiotas.

Perdemos alguns rituais. Mal compramos discos, não sabemos as caras dos cantores, a identidade visual. É legal ver os clipes no Youtube, mas depois fechamos a janela, e ele já se foram. Até mesmo o DVD já tá sumindo do mapa. Apagamos as músicas, se foram as memórias musicais. Abra a sua gaveta de discos dos anos 90 com suas anotações nos encartes, a etiqueta que diferenciava os seus discos, dos da sua mãe, e da sua irmã e veja a quantidade de memórias que isso vai te trazer. Nos conectamos com o mundo, e nos desconectamos de nós mesmos.

Isso porque eu nem comecei a falar de amor – saber que a pessoa que você tá a fim leu a mensagem no Whatsapp e não te respondeu doi mais do que quebrar uma perna. Será que é mesmo esse o mundo ideal? Não sei como mudar. Só sei que tem coisa demais, tem opção demais. Tá tudo muito no nosso alcance. O que é bom deixa de ter o valor devido, porque pode ser substituído a qualquer segundo com um clique. Me sinto um pouco prisioneiro dos maus hábitos que desenvolvi. Largar meu iPhone? Jamais. Apenas sobreviver em uma eterna relação de amor e ódio. Queria menos Wikipedia, mais Barsa, Almanaque Abril e dicionários. Menos iTunes e mais discos. Menos Skype e iMessage, e mais quem eu gosto me olhando cara a cara. Coragem, viu.

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