Flórida, Geração Sacoleira, e a Ressaca Moral

Não tem jeito, estamos vivendo uma febre [mais uma vez]. Eu me lembro criança dos anos 90, da febre dos brasileiros que invadiam a Flórida em busca dos baixos preços e da diversão no american lifestyle – no início do Plano Real, o dólar batia recordes e chegava à conversão de R$ 0,98 = US$ 1. Éramos invencíveis na Flórida. Quem esteve na Flórida nos anos 90 lembrará de uma loja chamada Victor’s – lá eu comprei a minha primeira Yashica, com 10 anos, por US$ 250. E meu primeiro discman. Na Victor’s dava até pra tomar Guaraná Antarctica. Brasileiros se apinhavam em vôos da VARIG, VASP e Transbrasil, hoje todas extintas. Recifenses lembrarão daquela agência de turismo Tavares Correia, que fretava um 747 [acredite] e o entupia de adolescentes para brincar nos parques de Orlando.

Veio 11 de Setembro, e a recessão. O real perdeu força, as políticas internacionais se estremeceram e conseguir o visto americano se transformou em um pesadelo para os brasileiros. Teve gente da minha família que teve o visto negado – e nunca tivemos a menor intenção de imigrar pra América, ou qualquer atividade ilegal. Simplesmente tudo virou um tormento. Além do disparo do dólar, que chegou a R$ 3. Os Estados Unidos tinham perdido a graça: quem vai querer ir pra um lugar onde você é ~tratado como ameaça~?

Agora estamos 2013, e olha: o jogo virou. Toda semana lemos manchetes sobre o recorde de gastos de brasileiros no exterior. Em qualquer shopping da Flórida, seja em Orlando [e principalmente nos seus outlets], ou Miami, só se escuta português. Ouvi todos os sotaques: recifense, carioca, do interior de São Paulo, Minas, Goiás, dos que consigo lembrar. Nos anos 90, havia uma tendência maior por consumo de itens como calças jeans, tênis e eletrônicos – que continuam uma bagatela.

Só que agora, como os preços do Brasil andam tão proibitivos, compra-se de tudo. Mesmo. Vi gente até comprando molho de salada [aqueles importados que no Brasil custam R$ 20, e nos EUA US$ 2]. Será possível mesmo que as pessoas estão fazendo a feira do mês nos EUA?

Dá vontade de comprar um monte de coisa que você não precisa [e você acaba fazendo isso], como uma churrasqueira insuportavelmente incrível [nem sei fazer churrasco], que no Brasil seria R$ 2500, por US$ 150 no Wal-Mart, barraca de camping [nunca acampei na vida], . Aí é onde está o problema dos E.U.A. As compras que você não precisa, mas cria um senso de urgência mental de “não perder aquela grande oferta”.

O frenesi do rolê das compras é como uma droga, e sim, estou no day after, com ressaca moral, e já tendo pesadelos com a fatura que vem por aí. Mas tenha certeza: na Flórida, você brasileiro, vai se sentir em casa: calor, todo mundo fala português, e se der saudade, tem até coxinha no outlet de Orlando pra você comer.

Um pequeno detalhe: sim, é tudo muito barato, mas é bom evitar algumas surpresas: lembre-se que você usar o cartão de crédito, precisa pagar 6% sobre todas as compras [imposto IOF]. E a viagem nem sempre sai tão baratinha assim: hotel, carro, gasolina, refeições, estacionamento, diversão. Cuidado com as surpresas – a minha mesmo está prestes a chegar.

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