Category: Entrevistas

O trabalho sensível e autoral do fotógrafo Pedro Pedreira

Este é Pedro. Pedro Pedreira. Fotógrafo e artista visual de 25 anos que mora em Nova York, mas te alcança em qualquer lugar do mundo com as mais bonitas fotografias. O cara manda muito! E olha que ele começou a fotografar profissionalmente há relativamente pouco tempo: são 3 anos pra essa conta que começou de maneira meio espontânea, como ele mesmo garante. Foi ajudando a mãe com o marketing de sua marca feminina que Pedro começou a registrar, primeiro material de backstage e depois as campanhas propriamente ditas. Não demorou pra começar a trampar com moda aqui no Brasil, mas ele sentia falta de uma educação mais formal e foi aí que Nova York entrou na jogada.

“Vim pra Nova York estudar, fui bater na porta de uma escola chamada ICP (International Center of Photography) e encontrei um curso de um ano”, ele conta. O curso terminou no meio do ano passado e desde então Pedro segue na cidade trabalhando como freelancer e tocando seus projetos pessoais, que foram se desenvolvendo: “acho que foi nesses últimos 6 meses, já pós curso, que eu realmente comecei a tatear território artístico como forma de expressão e começar entender os significados da minha fotografia”, diz.

Pedro se afastou da moda, que hoje em dia funciona como mais um recurso, um elemento criativo, mas não como assunto principal, e foi fazer retratos. Ele fotografa homens, e usa de toda a sua sensibilidade para expor, nas suas fotos, a essência alheia, contextos, personalidades, histórias. “Acho que esse imaginário se construiu naturalmente, provavelmente pelo fato de eu ser gay. Apesar disso, eu não gosto de me classificar como um ‘queer artist’, pois a mensagem nas minhas imagens, apesar de falar de gênero, não têm a ver exclusivamente com o universo homossexual”. Pedro quer quebrar barreiras de masculinidade e equilibrar feminino e masculino, colocar o homem numa posição vulnerável e mostrar pra ele que isso também significa força.

Claro que pra essa troca acontecer com verdade ele precisa caprichar na abordagem, cuja base é a honestidade. “Estar bem é o primeiro passo pra eu poder lidar com o outro”, ele diz, ressaltando que é essencial também ter tempo para observar, trocar ideia, passar confiança pras pessoas. As sessões muitas vezes rolam com gente que Pedro acabou de conhecer e a intimidade vai se construindo ao longo do trabalho. “Você aprende a ler as pessoas, a chegar mais desarmado, a se abrir buscando a abertura do outro. A entrega tem que ser caminho de mão dupla”, explica.

Atualmente Pedro está com alguns corpos de trabalho, que transitam entre séries e pegadas mais fluidas dentro de seu universo. Isso quer dizer que ele tem tanto investido em registros específicos, de uma só pessoa dentro de contexto e período particular, quanto em trampos mais abrangentes, mais chegados à sua rotina e vivência. Algumas das fotos aqui na matéria, inclusive, são de seu próximo trabalho, que até o momento se chama “Soft Hands”. O negócio, de acordo com Pedro, é não parar! “Independente da finalidade de cada imagem, é importante sempre estar fotografando, é só aí que você consegue entender e moldar esses projetos mais longo prazo”. A dica é clara: segue o rapaz no Instagram pra ficar de olho nas suas novidades!

AS INSPIRAÇÕES DE PEDRO

Três artistas que admiro muito são Helmut Newton, Robert Mapplethorpe e Peter Hujar. Como inspirações, eles me ajudam a esclarecer as dúvidas que eu tenho na prática como artista. Como lidar com explorações, como talhar a própria identidade, como colocar o trabalho no mundo e assim por diante, tentar entender realmente o ofício, o caminho. Porque eles conceberam aquelas imagens da maneira que fizeram? Não deixaria de seguir um instinto porque algum deles já fez algo parecido, mas se inspirar é justamente traduzir a referência com sua própria visão. Esses ídolos, infelizmente, já morreram, se fosse mencionar um nome contemporâneo, dentre vários que acompanho mais recentemente, seria um garoto chamado Brett Lloyd, ele arrasa demais. E fora do contexto fotografia, acho que me inspiro muito na minha própria vivência, minha sexualidade aflorou muito em Nova York e acho que fiquei mais sensível. Concebo/percebo muitas imagens em momentos mais íntimos, em que posso observar as pessoas mais cruas, mais vulneráveis. Às vezes, aquele é o momento de capturar a foto, outras é um registro mental de alguma coisa que tento recriar depois.

Moda: saiba mais sobre a Cacete Company e seu espírito livre e jovem

Uma nova paixão: a Cacete Company. Marca que está nas ruas desde 2015 e que tem como principais características uma moda jovem, de espírito livre e pegada inusitada, a Cacete traz peças provocativas, design super contemporâneo, a vibe do streetwear que estamos amando, tudo com personalidade própria.

Na Cacete a gente encontra também underwear que preza não só pela qualidade, mas também pelo estilo, afinal, por quê não? Esse é inclusive um dos maiores focos da marca, que tem um processo de produção 100% brasileiro. Além disso, essa galera é do fomento! Tanto de parcerias de criação e produção (dá pra ver tudo com detalhes no site deles) quanto das silhuetas que estão em alta; oversized, cortes desconstruídos etc. A gente bateu um papinho com o Raphael, um dos sócios da Cacete, pra saber um pouco mais dessa história!

Como surgiu a marca?

O processo de pensar a marca começou em meados de 2013. No início, não tínhamos um conceito determinado, porém queríamos explorar o universo do street. No começo de 2014 escolhemos o nome da firma e em abril de 2015 finalmente a lançamos. A vontade de atender o público masculino sempre existiu, mas foi durante este processo que definimos focar nas cuecas, por acreditarmos que fosse uma setor pouco explorado.

De onde veio esse nome?

Queríamos um nome 100% brasileiro, forte, irônico, debochado e principalmente fácil de guardar. A dualidade da palavra também foi super importante, pois existem regiões nas quais cacete significa palavrão e outras onde significa apenas um pãozin, rs! E além do mais, o nosso foco é vender cuecas, ou seja, porta cacete, haha!

CA.CE.TE.co na SPFW – N43 Março / 2017 foto: Marcelo Soubhia

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Como é o processo criativo de vocês?

O nosso slogan é da rua pra rua! E é bem isso que buscamos, referências do nosso cotidiano e principalmente o que gostaríamos de usar.

E que referências (artistas, universos, música, movimentos…) são essas que têm a ver com a Cacete?

Amamos ser locais! Nossas referências vêm de artistas de rua de BH, como #DESALIXO, e movimentos sociais, como Lá da Favelinha e Duelo de MC’s, por exemplo. Djonga e Cadu dos Anjos são músicos mineiros que a gente também admira. Somo bem mineirinsrs! Mas claro, curtimos muita música gringa: M.I.A (pela música e pelo ativismo político), Grimes, FKA, Robyn e Rihanna.

CA.CE.TE.co na SPFW – N43 Março / 2017 foto: Marcelo Soubhia

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Por fim, vocês falam no site que o processo de produção é 100% brasileiro. Conta mais detalhes pra gente!

Temos muito orgulho de onde viemos e fazemos questão de fazer tudo por aqui mesmo. Estar perto de quem produz pra gente é muito importante! Somos uma empresa de dois sócios que fazem tudo, a gente é empreendedor, mídias sociais, assessor de imprensa, officeboy, SAC…

Trabalhamos com duas mulheres maravilhosas, a modelista Ana, que está com a gente desde o início, e a pilotista Lau, que faz um acabamento perfeito. Os fornecedores de tecidos são todos nacionais. As malhas vêm do Sul do país e os tricolines do interior de Minas. Nosso processo serigráfico e de corte é todo produzido em BH, por empresas terceirizadas. Já os acessórios e sandálias são desenvolvidos em parceria com O Jambu e o artesão de calçados, Paolo, ambos também de BH.

Conheça as colagens e bordados apaixonantes do Pedroluiss

Sabe aquela sensação gostosa de descobrir um artista no Instagram e se identificar com a sua arte e as suas fotos? Pois é. O Pedro Luis, que hoje assina como pedroluiss, é um desses caras. Passear pelos registros de suas invenções é uma delícia e dá logo vontade de saber mais sobre seu processo criativo e suas inspirações, tanto que a gente foi correndo atrás dele pra desvendar essa história direitinho.

O Pedro tem 28 anos, é carioca e formado em Publicidade pela PUC-Rio, além de ter feito alguns cursos na Central Saint Martins, em Londres, e na EAV, no Rio. Desde que se formou, trabalhou como diretor de arte em agências de publicidade e na área de criação online e offline. Em 2014 ele se mudou pra São Paulo, onde começou a estudar Artes Plásticas na Escola Panamericana. Chegou até a trabalhar em algumas agências por lá, mas em 2015 ele resolveu ser freelancer pra poder se dedicar mais às artes e a uma produção mais autoral. Sorte a nossa!

Suas colagens e bordados chamam muito a atenção, são doces e ao mesmo tempo fortes. “Tenho os trabalhos de colagem no vinil, as colagens digitais e o meu caderno de colagem, onde tento fazer pelo menos uma por semana para exercitar e não perder a mão”, conta, “o bordado surgiu em 2016, eu fiz umas aulas com a minha vizinha e tomei gosto, muito mesmo”. Ele já fez uma exposição coletiva com os discos de vinil no Rio, além de ter três desses trabalhos no cenário da novela “A Lei do Amor”, da Globo. Em 2016 também rolou o convite para ilustrar uma das cartas do baralho da El Cabriton — e ele fez uma colagem, claro!

Os bordados de Pedro são super lindos e, apesar de ter aprendido com uma vizinha, a influência veio muito de sua mãe, que faz crochê e é super ligada no artesanal. Ele tem algumas séries de trabalhos nessa linha, como máscaras, pets sob encomenda (com fila de espera, hein), bastidores bordados (que já foram feitos para o Twitter e para a Globo), a série bem autoral com fotos antigas e as “brusinhas”, feitas em parceria com a sócia Alessandra Valois. É tudo agênero, bordado a mão e exclusivo, com apenas um bordado único para cada camiseta.

Uma foto publicada por Pedro Luis (@pedroluiss) em

E de onde vem tanta inspiração? Da vida que Pedro leva, mesmo. “Às vezes a inspiração vem de ver uma combinação de cor em algum prédio na rua, ler uma palavra e assimilar com algum sentimento…”, diz. E 2017 promete! Pedro já assinou uma coleção exclusiva com a Collector55 chamada “HOME IS WHERE…”, vai começar uma oficina de bordado com a amiga Patricia Matz e com a Pat e a Alessandra iniciou um projeto chamado “Feito à Mana”, de capacitação e profissionalização de trans.

Legal, né? Interessou, quer pra você? Corre lá no Insta do Pedro e manda mensagem ou manda email no pedroluisfs@gmail.com. Você pode também entrar em contato com a Myllery, galeria com a qual o Pedro tem vínculo.

Bolovo: uma marca bem massa e comprometida com os good times

Vamos falar de coisa boa? Vamos falar de Bolovo! “Hãm?”, você talvez pergunte. Sim, Bolovo, a marca que celebra 10 anos de estrada e que nasceu das mentes inquietas de Deco Neves e Lucas Stegmann de um jeito bem descompromissado e é divertidíssima.

Tudo começou em 2006, quando Deco e Lucas filmavam e fotografavam as suas viagens com os amigos. O nome “Bolovo” surgiu numa dessas viagens e acabou pegando. Como a turma era uma gangue, o nome foi parar em camisetas que o Deco fez com a mãe no Brás, em São Paulo, “elas eram muito podres”, ele diz. De lá pra cá surgiu um interesse natural e bem orgânico de produzir também umas peças de roupa que a galera tinha vontade de usar, mas não encontrava para comprar. Foi daí que veio a marca, que é definida como “de espírito livre” e inserida numa espécie de plataforma onde os caras também produzem vídeos, fotos e tudo que dá na telha.

A gente bateu um papo com o Deco pra saber mais dessa história, se liga:

Podemos definir a Bolovo como uma marca? Ela parece ser quase uma filosofia de vida… Acabou virando mesmo algo nesse sentido. A Bolovo é como se fosse uma “plataforma de lançamento” das nossas ideias. Um monte de coisas legais que temos interesse, a gente coloca dentro da Bolovo e lança pro mundo: vídeos, fotos, roupas, amigos, festas, viagens, esportes, ideias de “girico.com.br”… Isso tudo sempre com o norte que é: fazer memórias/ter boas histórias pra contar. Queremos ficar velhos e ser aqueles tiozinhos que sempre têm uma história boa na manga.

Como funciona o processo criativo de vocês? O que inspira as criações? Depois desses anos todos acho que a gente ainda não sabe da onde vem a inspiração, mas normalmente não é de onde procuramos na primeira vez. Nosso processo criativo é bem solto, não tem muito um caminho, mas as melhores ideias acabam sempre saindo de quando estamos todos juntos conversando sem muita preocupação. Aí depois a gente tenta lapidar as que achamos melhores. O que a gente acha mais legal mesmo é fazer as coisas acontecerem e nessa hora vem mais um milhão de ideias. A gente curte fazer coisas pra estrada e pros amigos. Daí já é um bom norte de “inspiração”. Também curtimos coisas extremamente bem feitas ou extremamente ridículas.

Quem usa Bolovo? Acho que são pessoas que entendem o valor de sair de casa e ter boas histórias pra contar, que curtem pôr a mão na massa mesmo e fazer coisas. Não ligamos pra classe social ou se curte isso ou aquilo. Acho que se você ver alguém usando Bolovo um dia deve ir trocar uma ideia com essa pessoa que ela deve ser bem gente fina.

Quais são seus planos para 2017? Tem sido uma fase muito legal e nova pra gente. Depois que saímos da MTV [os caras já trabalharam com a MTV e mais um monte de marca legal, tipo Nike, Vans, Void, Perestroika…] tivemos mais tempo para tocar a marca e estamos com bastante coisas no horizonte. Vamos lançar algumas colabs bem legais esse ano e novas peças que nunca tínhamos trabalhado antes.

Nós compramos um furgão 82! Vamos levar ele pra estrada e isso vai virar nossa websérie no youtube, que vai se chamar “Go Out” e deve estrear no fim de Março, começo de Abril. Nosso livro de 10 anos, financiado via crowdfounding, finalmente vai sair! Queremos fazer um campeonato de snowboard dentro da nossa casa e sei lá o que mais vamos inventar até o fim do ano.

Queria agradecer todo mundo que tem apoiado essa ideia louca que é a Bolovo e por deixar os Good Times rolarem. Ohhh Yeahhh!

Bem massa, né? A Bolovo tem loja online, então quem quiser fuçar mais das ideias, das loucuras e, claro, dos produtos dos caras, é só entrar lá e se jogar. Nós temos uma queda por tudo, das meias aos shorts, passando pelas camisetas que têm uma cara meio antiguinha. É tudo mega descolado e divertido e os preços começam nos R$ 25,00 (meias invisíveis) e vão até os R$ 209,00 (casacos).

Todas as fotos são do Instagram da marca!

No Dia Mundial de Combate Contra a AIDS, o papo reto (e afetuoso) de um soropositivo

Hoje, dia 1º de dezembro, é o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. E a gente queria falar sobre isso de um jeito menos “cagador de regra”, autoritário e distanciado, de uma forma mais afetuosa e numa tentativa de nos aproximarmos de pelo menos uma das realidades da doença (porque claro, existem várias). Há 35 anos aconteceu aquele momento emergencial da AIDS, que assustou muita gente e levou muitos. De lá pra cá, a realidade da epidemia se transformou: Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, declarou que “a comunidade internacional pode olhar para trás com algum orgulho, mas ainda é preciso mirar adiante com determinação e comprometimento”.

Isso vem sendo feito de diversas formas, por meio de variadas frentes, de programas mundiais que se engajam para colocar fim à epidemia até 2030, como o caso da ONU, até iniciativas de comunicação e de acesso à informação, que em dias como hoje, por exemplo, publicam grandes reportagens cheias de dados sobre o assunto. Iniciativas todas importantes e louváveis, obviamente, mas como abordar a questão de um jeito mais terreno e esclarecedor, sem reproduzir clichês ou mesmo os números que são de fácil acesso online?

Foi aí que nos deparamos com um testemunho pessoal do Fernando Impagliazzo no Facebook que vem de um lugar de fala, é desmistificador e traz uma visão interna da coisa. E o convidamos para compartilhar aqui essa letra. “Você se sente confortável compartilhando, Fe?”, “Me sinto não só confortável como fazendo algo necessário e urgente. Fazer com que esse mundo seja menos preconceituoso, menos século XIX, menos difícil para todos nós”, ele respondeu. Então aqui estão suas colocações:

1º de Dezembro é o Dia Internacional da Luta Contra a AIDS. Pessoalmente, não gosto desse “contra” no título. Primeiro porque reforça a ideia bélica de que o vírus seja um invasor. Segundo porque, me sabendo soropositivo há sete anos, percebi que lutar contra alguma coisa é bem diferente de lutar a favor de si. “AID”, em inglês, é cuidado. Ser soropositivo é levar todo esse cuidado da doença pro resto da vida. Por um lado, o velho sermão de “você vai ter de tomar remédio o resto da vida”. Mas também um estar mais atento tanto à sua saúde e às suas necessidades, quanto estar atento ao outro.

A luta CONTRA a AIDS, pra mim, se torna uma luta CONTRA o “cuidado”, CONTRA um saber que há pelo menos 50 anos, a humanidade tem adquirido de si mesma. Minha luta a favor, a favor do direito de estar vivo, do direito de saber que boa parte da nossa juventude ainda contrai o vírus. Não, não é porque é promíscua (como se houvesse algum desvalor nisso, procure promíscuo no dicionário) nem muito menos porque é desavisada. As pessoas que contraem o vírus são, antes de tudo, pessoas que se doaram descuidadosamente ao outro. Esse outro, muitas vezes, não é o inimigo. O vírus vem para tomar uma outra dimensão.

Pois bem, falo de uma luta. Nada bélica. Feita de união. A favor do direito de sabermos toda a implicação que esse cuidado ainda carrega. Apesar de o vírus estar controlado pela Medicina, os efeitos são bem ruins. Desde 2010, meu fígado, por exemplo, tem apresentado uma inflamação, decorrente do vírus e do meu sobrepeso. Comecei então a fazer atividade física. O vírus, tão ruim no imaginário das pessoas, pode ser bem real na vida prática. Apesar de me trazer um hábito de vida saudável, eu repito: é sempre melhor não ter o vírus. Luto também para que, quando alguém que se souber soropositivo, isso ser encarado da melhor forma possível. Estar consciente da doença e, ao mesmo tempo, longe das metáforas preconceituosas que ouvimos cotidianamente sobre o HIV.

Amor e cuidado a todos!

Para entender mais do imaginário construído em torno da AIDS e quebrar seus paradigmas, vale ler o livro “Doença Como Metáfora / AIDS e Suas Metáforas”, da Susan Sontag, dica do próprio Fernando. Quebrar estigmas também faz parte dessa luta. É sempre importante lembrar que pessoas em situação de pobreza sofrem ainda mais com o HIV, com menos acesso a cuidados e serviços, mas o apoio é necessidade para pobres, ricos, para a classe média, para o seu amigo. A ideia aqui não é alienar, pelo contrário, é trocar. Falemos, conversemos, ESCUTEMOS e lutemos da forma que dá. E ei: vamos nos cuidar!

V Mostra de Artes Jardim Suspenso: a mostra que mora no Morro da Babilônia

No alto do Morro da Babilônia, comunidade carioca rodeada por Botafogo, Urca, Leme e Copa, quem não sobe nem imagina o que se passa lá em cima. A V Mostra de Artes Jardim Suspenso, um festival cultural que oferece exposições, residências e experimentações, ocupou a favela de sua parte alta até a floresta e esteve aberta para visitações entre os dias 19 e 20. Sim, floresta, porque o Morro da Babilônia ainda tem, lá dentro, uma Área de Proteção Ambiental (APA). Instalações, performances, site-specific, música, poesia se misturam com o cenário hora de comunidade, hora de verde da mata, em trabalhos construídos junto aos moradores da região, num processo de troca verdadeira que buscou, todo o tempo, fugir de qualquer tipo de aproveitamento abusivo.

A gente conversou com o Jeferson Andrade, uma das cabeças e corpos por trás da organização do Jardim Suspenso, para entender melhor a mostra, de seu nascimento até seu funcionamento atualmente. O Jeferson participa da mostra desde sua segunda edição e esse ano esteve bastante envolvido no processo de curadoria/escolha dos artistas que participariam da residência, vivendo e criando durante um mês numa casa no Morro e produzindo diálogos reais com a comunidade e com aquela localidade, tudo inserido dentro do tema dessa edição, que é “Descolonização”.

Como começou o evento? O evento foi inicialmente idealizado pela Dandara [Catete], uma artista que está até hoje conosco e que começou com um projeto no casarão no Cosme Velho, posteriormente fez um outro na Tijuca e na 3ª edição passou aqui para o Morro da Babilônia. O Álvaro [Júnior], que mora aqui, sempre foi um dos produtores, desde o começo. Eu entrei na 2ª edição, na Tijuca, participando como artista e da organização. Uma das características do Jardim Suspenso é que os artistas fazem parte também da produção, assim como os músicos. A ideia é que seja um evento de artes integradas que explore outros ângulos, outras linguagens, como a roda de capoeira, o debate…

E como foi o processo de organização desse ano? E de seleção de artistas? Esse ano eu estou no Jardim como produtor de arte, fazendo a produção conceitual do evento, a seleção… Fizemos a seleção a partir do espaço, contando com a ajuda de uma arquiteta, a Laura, e do Ivan Pascarelli, que nos deu uma assessoria muito importante quanto a como os artistas poderiam utilizar a experiência espacial de todo o território, desde a casa até aqui. Abrimos um edital, uma convocatória pública, para selecionar dez artistas que seriam residentes, e esses artistas residentes, junto com a gente, selecionariam outros tantos artistas como não residentes. Os artistas residentes vieram para morar, então privilegiamos artistas de endereços distantes, de periferia e até de outros países (o Peter é um artista de Berlim, o Nacho é argentino de Córdoba). Tentamos ter uma diversidade de propostas e de gênero e fomos desenvolvendo os trabalhos em torno de um tema geral, que esse ano foi descolonização.

Como esse tema se relaciona com o espaço do Jardim Suspenso, com o morro? Estávamos interessados em leituras pós-coloniais, no que seria o decolonial, as produções de linguagem como resistência, criação de novas palavras, de novas situações, instalações espaciais… O espaço da favela é um espaço que tem uma estética de vivência, vivência como produção estética contínua, decolonial. As próprias construções: eles constroem as casas deles de maneira bem manual, é uma coisa muito interna, estão sempre construindo e isso é uma demarcação de território, é uma tomada muito interessante, um senso de comunidade dentro de um cerco Zona Sul, branco e que não considera o morro como parte do bairro, mas as pessoas estão aqui vivendo há muito tempo. Na década de 80, eles foram responsáveis pelo reflorestamento da região, essa era uma área desertificada pela criação de gado. A gente conversou muito com o presidente da associação de moradores, o André, que tem um projeto interessante e uma fala incrível sobre o problema racial e de exotificação, o porquê disso, de transformar a favela num zoológico, esse turismo predatório num nível psiquíco, então ele fez parte também, no primeiro dia da residência já iniciamos com uma fala muito boa do André.

Você está com uma instalação aqui? A minha instalação são as placas,tem duas aqui e duas lá embaixo. São placas publicitárias, de vendas de imóveis, a Imobiliária Privilégio, que eu não necessariamente inventei. Eu estava dando um rolê no asfalto em Copa, tudo caro pra caralho, e aí eu passei por uma imobiliária com esse nome perto do metrô. Existe! Aqui em Copa! E aí eu falei “putz, será?”. Eu tinha conversado com o André, que tinha me dito que eles estavam com um problema super sério com a galera que mora numa clareira no morro; as pessoas estão a ponto de serem removidas porque a Área de Proteção Ambiental tem as áreas limítrofes demarcadas com barras de ferro, que foi onde coloquei minhas placas. Tudo que está pra trás vai ser removido, já existe uma ordem judicial para isso e eles alegam que é pelo impacto ambiental, mas na verdade é porque dá pra ver, de Copacabana, os barracos aqui da frente, entendeu? Isso atrapalha a especulação imobiliária.

Fala mais sobre o processo de seleção dos artistas, foi por vivência, por trampo? Foi uma seleção totalmente aberta. Fizemos um editalzinho, não foi nada burocrático. Os artistas inscritos enviaram projetos e nós selecionamos esses projetos de acordo com isso que estávamos interessados em construir. A partir do projeto do Jardim Suspenso a gente entendeu que a melhor experiência que poderíamos produzir era uma experiência imersiva.

Quando chegamos ao Jardim Suspenso, fica logo claro que uma das coisas mais importantes de todo aquele processo acontecendo ali é a relação entre os artistas e o lugar, especialmente se pensarmos que muitos artistas de outras cidades e até de outros países de repente se viram morando na Babilônia. “O Jardim se instaura dentro de uma questão geopolítica que a gente não pode negar, é uma favela com UPP. Tem uma pequena guerra rolando aqui, os residentes tomaram noção disso, é uma guerra, pessoas morrem, esses corpos devem ser colocados em questão, o corpo periférico, o corpo feminino, o corpo preto, o corpo do favelado”, afirma Jeferson.

Toda essa diversidade foi perseguida, mas no sentido de travar diálogos tanto com essas pessoas que possuem seu lugar de fala quanto com quem vive distante de tal realidade: “a gente não pode ficar conversando entre a gente sobre descolonização, os corpos privilegiados têm que vir aqui também, é importante criar esse tipo de integração para ter o debate”, explica Jeferson. E nisso se deu também a vontade de criar uma residência internacional. Na casa convivem artistas de Berlim, de São Gonçalo, de Mesquita, de São Paulo. E aí os tensionamentos acontecem, afinal, como essas pessoas que vêm de realidades tão diferentes lidam com a favela? E como elas se relacionam entre si diante de suas experiências tão diversas com as cidades?

Ana Matheus Abbade, de São Gonçalo, fez uma vídeo-instalação inspirada em experiências que teve ali. “Só Não Pode Ser Ele” nasceu de seu processo de reconhecimento do lugar e de sua descoberta da homosexualidade como um grande tabu na comunidade. Histórias de homens que pulavam muros para transar com outros homens sem serem vistos pipocaram em seus ouvidos, “essa relação de como se formula a identidade que se perpetua no seu corpo e como se constitui na negociação com a pólis, acho que foi mais ou menos essa a minha forma de pensar a estrutura do filme”, diz Ana, que é residente do projeto. Já Miguel Vida, que é da Espanha, mas vive na Babilônia há dois anos, tem seus trabalhos espalhados pelo Morro. Ele faz parte do projeto do Espaço Cultural Jardim da Babilônia, uma iniciativa relevante de fomento artístico e empoderamento cultural que tem um bar, por meio do qual eles pretendem viver, crescer e sustentar o projeto. Miguel pintou os degraus das escadas do Morro: “fiz uma poesia e coloquei nos degraus, porque é o que é mais visto quando você carrega material, e queria trazer para o físico. Os carregadores de material passam o tempo inteiro olhando pro chão”.

Visitar o Jardim Suspenso e entender todas essas questões na prática é deveras impactante. Não se trata de uma exposição tradicional nem da reprodução de clichês, mas de uma explosão do que se entende como instituição e espaço de representação da arte, como o próprio Jeferson nos explicou. No Morro da Babilônia, os artistas se envolvem de maneira ativa com questões políticas, sensoriais, locais, identitárias e de luta, e isso se traduz em suas obras, além de alcançar uma parte da população carioca que nem sempre tem acesso a isso. “trabalhar dentro da favela foi muito interessante porque a gente pôde explorar umas coisas incríveis, dá pra emergir coisas incríveis falando só desse lugar sem ser predatório ou exploratório. A gente tem que ter capacidade de integração, não é unidirecional”, conclui Jeferson.

Você pode saber tudo que rolou na programação do Jardim Suspenso aqui!

Fotos: West Pereira